2026/08/12
Santa Maria da Feira Oliveira de Azeméis
Jorge Palma atua, com os filhos, a 10 de outubro no Cineteatro António Lamoso, num concerto com preço base de 12 mil euros, depois de o mesmo espetáculo ter sido cancelado em Oliveira de Azeméis.
Jorge Palma atua a 10 de outubro no Cineteatro António Lamoso. O Município de Santa Maria da Feira fixou em 12 mil euros, acrescidos de IVA, o preço base para a apresentação de “3 Palmas na Mão”, o mesmo espetáculo que deveria ter passado por Oliveira de Azeméis em março e cujo cancelamento acabou por dar lugar a uma polémica contratação dos Jafumega.
“3 Palmas na Mão”, de Jorge Palma, vai chegar a Santa Maria da Feira no próximo 10 de outubro, às 21h30, para uma apresentação única no Auditório do Cineteatro António Lamoso. O espetáculo integra a programação cultural do equipamento municipal e terá um preço base de 12 mil euros, acrescido de IVA à taxa legal em vigor, se aplicável.
O procedimento foi lançado pelo Município de Santa Maria da Feira através de ajuste direto. De acordo com o caderno de encargos consultado pelo Região de Terras de Santa Maria, a decisão de contratar remonta a 12 de maio, dois meses da data prevista para o concerto em Oliveira de Azeméis, e o processo tem como objeto exclusivo a aquisição dos serviços necessários à realização de “3 Palmas na Mão” no Cineteatro António Lamoso.
Mas a passagem de “3 Palmas na Mão” por Santa Maria da Feira tem uma história que começou alguns meses e alguns quilómetros antes.
O mesmo espetáculo estava anunciado como um dos destaques da programação do primeiro trimestre do TeMA – Teatro Municipal de Oliveira de Azeméis, onde Jorge Palma deveria atuar no dia 21 de março de 2026.
A proposta assumia um formato mais intimista e juntava o músico aos dois filhos, Vicente Palma e Jorge Palma, num concerto que representaria também um regresso aos palcos após os problemas de saúde que tinham obrigado o artista a adiar outras atuações.
O espetáculo, contudo, nunca chegou a realizar-se. Nos primeiros dias de janeiro, a Câmara de Oliveira de Azeméis anunciou o cancelamento por motivos de saúde do artista. A autarquia encontrou de imediato uma alternativa para manter a programação: os Jafumega ocupariam a mesma data, 21 de março, às 21h30, com o espetáculo comemorativo dos 45 anos da banda.
É por isso que, quando Jorge Palma subir ao palco em Santa Maria da Feira a 10 de outubro, terão passado quase sete meses desde a noite em que “3 Palmas na Mão” deveria ter sido apresentado em Oliveira de Azeméis.
O cancelamento em si não esteve no centro da controvérsia. A discussão surgiu com a solução encontrada para o substituir.
A escolha dos Jafumega provocou discussão pública e política em Oliveira de Azeméis por uma razão particular: Luís Portugal, líder da banda, é também programador cultural do Município de Oliveira de Azeméis.
A contratação de um espetáculo protagonizado pela banda do próprio responsável pela programação cultural levantou questões sobre transparência e um eventual conflito de interesses. O tema chegou às redes sociais e aos órgãos municipais, enquanto o presidente da Câmara defendeu não existir falta de ética ou transparência na decisão.
A polémica ganhou uma segunda dimensão quando se tentou perceber quanto iria efetivamente custar o concerto dos Jafumega.
A contratação não aparecia isoladamente. O espetáculo foi incluído num pacote global de 37 mil euros, acrescidos de IVA, adjudicado à empresa Sons em Trânsito – Espetáculos Culturais, que reunia três iniciativas: Jafumega, “Que Ventos São Estes?” e “Casa de Amália”. O contrato não discriminava quanto dos 37 mil euros correspondia individualmente a cada espetáculo.
Esse detalhe foi central na discussão: apesar de o contrato ser público, a leitura do documento não permitia saber quanto estava efetivamente reservado ao concerto dos Jafumega.
Numa reunião do executivo municipal, o vereador do CHEGA, Manuel Almeida, questionou diretamente o presidente da Câmara sobre o valor a pagar pela atuação dos Jafumega. A resposta do autarca limitou-se a indicar que a informação era pública. O contrato que viria a ser conhecido, porém, apresentava apenas o montante global e não individualizava o cachet da banda.
Essa precisão é importante: a pergunta documentada ao presidente dizia respeito ao valor dos Jafumega, e não especificamente ao preço que teria o concerto de Jorge Palma.
No meio da controvérsia, foi ainda avançado que Luís Portugal doaria o cachet do concerto dos Jafumega a uma coletividade de Oliveira de Azeméis, numa tentativa de afastar ou reduzir as críticas geradas pela contratação.
Um mês depois do concerto, porém, uma verificação realizada pelo Região de Terras de Santa Maria não encontrou elementos públicos que permitissem confirmar a concretização dessa doação. Não foi identificada publicamente a coletividade beneficiária, o montante entregue ou uma prova da transferência. A própria ausência de um valor individualizado para o concerto dos Jafumega tornava impossível determinar qual seria, afinal, o montante da alegada doação.
A conclusão dessa verificação foi, por isso, “não comprovado”.
É neste contexto que “3 Palmas na Mão” reaparece agora no calendário cultural da região, desta vez em Santa Maria da Feira.
Não é possível concluir que os 12 mil euros mais IVA definidos pela Câmara da Feira correspondam ao preço que Oliveira de Azeméis teria suportado em março. São contratos diferentes, celebrados em momentos distintos e potencialmente sujeitos a condições de produção também diferentes.
Mas há uma diferença objetiva: em Santa Maria da Feira, o valor máximo previsto para a contratação do espetáculo está claramente identificado.
O caderno de encargos fixa o preço base em 12 mil euros e associa-o diretamente a uma única apresentação de “3 Palmas na Mão”, a realizar a 10 de outubro, às 21h30, no Cineteatro António Lamoso.
Quase sete meses depois de o espetáculo ter desaparecido do cartaz de Oliveira de Azeméis e dado lugar a uma substituição que acabaria envolta em dúvidas sobre conflito de interesses, valores e transparência, Jorge Palma prepara-se finalmente para apresentar “3 Palmas na Mão” nesta região.
Desta vez, pelo menos um dos números está escrito sem margem para dúvida: 12 mil euros, antes de IVA, como preço base para a atuação em Santa Maria da Feira.