2026/10/14
Os primeiros passos como trabalhador-estudante, aos 16 anos, aos 11 anos à frente da Câmara Municipal. No centenário de São João da Madeira, o atual ministro da Economia revisitou as memórias de uma vida ligada à autarquia sanjoanense.
Começou a trabalhar na autarquia aos 16 anos, chegou à presidência décadas depois e liderou o município durante 11 anos. Nas comemorações do centenário da emancipação concelhia, Manuel Castro Almeida recuperou memórias pessoais, falou das decisões que marcaram os seus mandatos e confessou que deixou a presidência com o "sentimento do dever cumprido".
Aos 16 anos, Manuel Castro Almeida já conhecia por dentro os corredores da Câmara Municipal de São João da Madeira. Entrara como trabalhador-estudante, num tempo em que o país era diferente e as autarquias dispunham de meios e responsabilidades muito distintos dos atuais. Foi nesse contacto precoce com o funcionamento dos serviços municipais que começou a construir uma relação com o poder local que acabaria por marcar grande parte da sua vida.
O jovem funcionário viria, décadas mais tarde, a ocupar o gabinete da presidência da mesma autarquia. Durante 11 anos, entre 2002 e 2013, liderou os destinos de São João da Madeira, atravessando um período de transformação económica, industrial e social da cidade. Hoje, como ministro da Economia e da Coesão Territorial, continua a encontrar nessa experiência ensinamentos que considera fundamentais para o exercício de funções públicas.
Foi precisamente esse percurso, feito de diferentes responsabilidades dentro e fora da câmara, que Castro Almeida escolheu recordar na sessão solene do centenário da emancipação concelhia de São João da Madeira, realizada a 11 de outubro, na Casa da Criatividade.
Perante o primeiro-ministro, Luís Montenegro, antigos presidentes da Câmara, autarcas e representantes das instituições, o atual governante colocou temporariamente de lado os grandes temas da política económica nacional para fazer um discurso de memória e reconhecimento.
"Há três momentos da minha ligação à Câmara Municipal que marcaram o meu percurso e que guardarei para sempre", anunciou.
Os três momentos correspondiam a etapas diferentes de uma vida ligada ao município: a entrada ao serviço da autarquia, o primeiro dia como presidente e a despedida da presidência.
Castro Almeida começou por recuperar o tempo em que conciliava os estudos com o trabalho na Câmara Municipal. Num Portugal ainda distante da realidade atual, as autarquias tinham outros meios, competências e formas de funcionamento.
Para o futuro presidente da Câmara, a experiência representou muito mais do que um primeiro emprego.
"Foi uma escola de aprendizagem, de exigência e de iniciação ao serviço da causa pública", afirmou.
O contacto com os funcionários e com os problemas que diariamente chegavam aos serviços municipais permitiu-lhe compreender uma dimensão do funcionamento da administração pública que considera essencial: os processos administrativos não são apenas documentos, números ou procedimentos burocráticos.
"Aprendi a respeitar os seus funcionários, a perceber o valor do trabalho invisível e a compreender que por detrás de um processo administrativo está quase sempre uma pessoa à espera de resposta."
A frase, recuperada várias décadas depois, acabou por funcionar como um dos fios condutores do discurso.
Castro Almeida quis sublinhar que a administração pública deve ser avaliada não apenas pela capacidade de tomar decisões, mas também pela forma como responde às necessidades concretas dos cidadãos.
Aos 16 anos, não imaginava, contudo, que viria a assumir a responsabilidade máxima da instituição onde começara a trabalhar. "Não imaginava que a vida me traria de regresso à mesma casa, anos depois, como Presidente da Câmara."
O segundo momento da história aconteceu quando Manuel Castro Almeida assumiu a presidência da Câmara Municipal de São João da Madeira, em 2002.
Recordou o primeiro dia no gabinete da presidência como uma mistura de entusiasmo, responsabilidade e ansiedade. "Levava comigo a confiança dos sanjoanenses, a consciência da responsabilidade assumida e uma enorme vontade de fazer o melhor pela nossa terra."
A confiança dos eleitores constituía, ao mesmo tempo, um estímulo e uma exigência. Castro Almeida sabia que recebia uma cidade com um percurso de desenvolvimento fortemente marcado pelo empreendedorismo, pela indústria e pela determinação dos seus habitantes.
As expectativas eram elevadas e o novo presidente sentia a obrigação de respeitar a herança de quem tinha contribuído para a afirmação de São João da Madeira como município autónomo.
Foi nesse contexto que evocou o Grupo Patriótico Sanjoanense, o movimento que esteve na origem da emancipação concelhia de 1926, como uma referência para a responsabilidade que assumira. "Eu tinha que respeitar o legado e as ambições do Grupo Patriótico Sanjoanense."
O exercício da presidência acabaria por aprofundar os ensinamentos que tinha recebido quando era trabalhador da câmara. "Compreendi que presidir uma Câmara Municipal não é apenas decidir. É ouvir as pessoas, explicar as escolhas, encontrar soluções e responder por elas".
Na reflexão sobre os anos em que liderou o município, Castro Almeida destacou uma particularidade do poder local: a proximidade permanente entre os eleitos e os cidadãos.
Ao contrário de outras funções políticas, a presidência de uma Câmara coloca os responsáveis autárquicos em contacto direto com as consequências das suas decisões.
O presidente encontra na rua quem aguarda uma obra, quem precisa de ajuda, quem espera uma oportunidade ou simplesmente quem pretende obter uma explicação. "É cruzarmo-nos na rua com quem espera uma obra, uma oportunidade ou simplesmente uma palavra".
Para Castro Almeida, essa proximidade representa simultaneamente um privilégio e uma exigência. "Essa proximidade dá ao Poder Local uma exigência que nenhum gabinete consegue substituir".
Durante os 11 anos que se seguiram, a atividade autárquica foi preenchida por milhares de horas de trabalho, reuniões, audiências, assembleias municipais e decisões que procuravam responder às necessidades da cidade.
Nem todas tinham a mesma dimensão ou visibilidade. Algumas traduziam-se em projetos estruturantes, outras em pequenas intervenções que podiam fazer a diferença na vida de uma pessoa ou de uma família.
Essa distinção entre a dimensão política das decisões e o seu efeito concreto na população atravessou boa parte da intervenção do antigo presidente.
Ao revisitar os mandatos entre 2002 e 2013, Castro Almeida identificou a ambição que, segundo afirmou, orientou a sua governação: construir uma cidade competitiva e solidária.
São João da Madeira já possuía uma forte identidade industrial, construída ao longo de décadas pela chapelaria, pelo calçado e por outras atividades económicas que contribuíram para a sua afirmação regional e nacional.
O desafio consistia em aproveitar esse património produtivo, sem deixar que a cidade ficasse limitada às atividades tradicionais. "Queríamos valorizar essa herança e, ao mesmo tempo, abrir caminho à inovação", recordou.
Entre os exemplos escolhidos para ilustrar essa estratégia estiveram a Sanjotec, a recuperação da Oliva, a aposta no turismo industrial e a introdução do ensino do mandarim.
Na interpretação do antigo autarca, essas iniciativas partilhavam um objetivo: aproximar a experiência e a capacidade produtiva das empresas do conhecimento, da criatividade e das oportunidades do futuro.
A Sanjotec representava a aposta no empreendedorismo e nas novas atividades económicas. A recuperação da Oliva e o desenvolvimento do turismo industrial procuravam valorizar o passado fabril, dando-lhe novas funções e visibilidade. O ensino do mandarim surgia como exemplo da preocupação em preparar a cidade para uma economia cada vez mais internacionalizada.
Castro Almeida apresentou estes projetos como parte de uma visão que procurava conciliar a identidade histórica de São João da Madeira com a transformação da sua economia. Mas a competitividade, insistiu, não podia constituir o único objetivo da ação municipal.
A dimensão social dos seus mandatos ocupou também um lugar de destaque na intervenção.
Castro Almeida recordou o investimento nas escolas, na habitação social, na cultura e nos espaços públicos, defendendo que o desenvolvimento de uma comunidade não pode ser medido exclusivamente através dos indicadores económicos. "O desenvolvimento não se mede apenas pela capacidade de criar riqueza. Mede-se também pelas oportunidades que uma comunidade oferece e pela forma como cuida de quem precisa".
Entre as iniciativas que decidiu recuperar perante os presentes, destacou uma medida de apoio à comparticipação dos medicamentos de idosos com menos recursos.
O antigo autarca falou desta resposta com particular emoção, atribuindo-lhe uma importância que podia não ser imediatamente percetível quando comparada com grandes obras ou investimentos municipais. "Para quem deles necessitava, essas medidas discretas eram tão importantes como uma grande inauguração".
A referência acabou por ganhar um significado adicional durante a própria cerimónia. No discurso de encerramento, Luís Montenegro revelou que Manuel Castro Almeida teve influência na decisão do Governo de apoiar medicamentos destinados a pensionistas com baixos rendimentos.
"Ele foi uma das pessoas que esteve na base dessa decisão", afirmou o primeiro-ministro.
Montenegro associou diretamente a preocupação social demonstrada pelo antigo presidente da Câmara durante os seus mandatos à intervenção que passou a desenvolver no Governo.
O primeiro-ministro revelou ainda que Castro Almeida lhe recorda frequentemente a importância dessa medida, considerando-a uma forma de reconhecer e retribuir uma vida de trabalho a quem recebe pensões mais baixas.
A ligação estabelecida por Montenegro entre a experiência autárquica e uma política pública nacional mostrou como algumas das preocupações manifestadas por Castro Almeida enquanto presidente da Câmara continuam presentes nas suas responsabilidades governativas.
Depois das memórias da juventude e dos anos de presidência, Castro Almeida chegou ao terceiro momento da sua narrativa: o último dia como presidente da Câmara Municipal.
O contraste com o primeiro dia no gabinete da presidência foi uma das passagens mais pessoais do discurso. Em 2002, tinha assumido funções com entusiasmo, mas também com a ansiedade provocada pelas expectativas da população.
Onze anos depois, ao terminar o seu percurso à frente da autarquia, o sentimento era outro. "Se no primeiro dia trazia a expectativa de fazer o melhor pela nossa terra, no último acompanhava-me o sentimento do dever cumprido".
Castro Almeida fez, contudo, uma ressalva: não considerava que tudo tivesse ficado feito, nem que todas as decisões tomadas ao longo dos mandatos tivessem sido perfeitas.
O sentimento de dever cumprido resultava antes da convicção de ter colocado o melhor das suas capacidades ao serviço da cidade. "Sabia que tinha dado àquela missão o melhor das minhas capacidades com empenho, dedicação e respeito pela confiança recebida dos sanjoanenses".
A dimensão pessoal dessa experiência voltou a surgir quando resumiu o que tinha ficado entre o início e o fim dos mandatos. "Entre a expectativa do primeiro dia e o sentimento do último ficou uma parte muito importante da minha vida".
Ficaram os projetos e os resultados, mas também as dificuldades, as preocupações, as alegrias e as relações humanas construídas ao longo dos anos.
Castro Almeida aproveitou a homenagem para agradecer às pessoas que o acompanharam no exercício da presidência.
Dirigiu palavras de reconhecimento aos vereadores que integraram as suas equipas, aos funcionários municipais, às instituições e aos empresários que participaram no desenvolvimento da cidade. Fez também questão de individualizar alguns nomes.
Recordou Fernando Portal, presidente da Assembleia Municipal durante os seus mandatos, e os antigos presidentes da Junta de Freguesia Joaquim Mateus e Carlos Coelho.
O agradecimento estendeu-se a todos os que contribuíram para concretizar os projetos e responder às necessidades de São João da Madeira. A evocação dos antigos colaboradores serviu também para introduzir uma reflexão sobre a natureza do exercício do poder.
Na sua perspetiva, nenhum presidente da Câmara pode considerar-se dono da história da cidade, porque cada mandato corresponde apenas a uma etapa de um percurso coletivo. "Nenhum de nós é proprietário da história de São João da Madeira. Recebemos um legado, procurámos acrescentar-lhe alguma coisa e passá-lo a quem vem a seguir".
A homenagem a Castro Almeida não se ficou pelo seu próprio discurso. Luís Montenegro aproveitou a cerimónia para destacar a relação política e pessoal que mantém com o atual ministro da Economia e da Coesão Territorial.
O primeiro-ministro recordou mais de três décadas de amizade, proximidade e participação conjunta na vida pública.
"O Manuel Castro Almeida não é apenas hoje o Ministro da Economia e da Coesão Territorial, é alguém que me acompanhou desde os meus primeiros passos [...] na atividade pública e política»", afirmou.
Montenegro referiu o percurso partilhado e a experiência autárquica do governante, deixando-lhe um elogio direto.
"Foi, objetivamente, também um grande Presidente da Câmara". A intervenção do primeiro-ministro reforçou a dimensão política da homenagem, numa cerimónia que juntou antigos presidentes de diferentes sensibilidades partidárias.
Montenegro deixou igualmente palavras de reconhecimento a Ricardo Oliveira Figueiredo e Jorge Vultos Sequeira, recordando a relação pessoal que mantém com ambos, apesar das diferenças de percurso e, no caso de Vultos Sequeira, de posicionamento político.
Na parte final da sua intervenção, Castro Almeida voltou a olhar para São João da Madeira e para a identidade do concelho.
Destacou a forma como a cidade se afirmou através da iniciativa dos seus habitantes, da indústria e da capacidade de transformar ambição em desenvolvimento. "Cresceu a pulso, graças à capacidade de uma comunidade que soube transformar a sua ambição em desenvolvimento".
Para o atual ministro, essa característica distingue São João da Madeira e ajuda a explicar o percurso de um município que, apesar da reduzida dimensão territorial, conquistou uma posição importante no tecido económico português.
Foi também essa herança que quis associar ao futuro da cidade. Saudou o atual presidente da Câmara, João Oliveira, e desejou-lhe sucesso no exercício das funções, recordando que quem assume responsabilidades públicas recebe sempre um trabalho construído por gerações anteriores.
Aos 16 anos, Manuel Castro Almeida era um trabalhador-estudante a aprender o funcionamento dos serviços municipais. Entre 2002 e 2013, foi o responsável máximo pela Câmara onde tinha iniciado a vida profissional. Hoje, exerce funções no Governo, com responsabilidades que se estendem a todo o país.
O percurso mudou a dimensão das decisões que lhe cabe tomar, mas o ministro garantiu que continua a transportar consigo os princípios aprendidos na autarquia.
Falou do respeito pelo dinheiro público, da necessidade de alcançar resultados e da responsabilidade de assegurar que as decisões políticas melhoram efetivamente a vida dos cidadãos. "Exerço agora funções à escala nacional, mas continuo a trazer comigo tudo o que aqui aprendi".
A participação no centenário permitiu-lhe, assim, revisitar uma ligação que atravessa diferentes etapas da vida, desde a juventude à presidência da Câmara e às atuais responsabilidades governativas.
O antigo autarca não procurou apresentar os 11 anos de governação como uma obra exclusivamente sua. Preferiu recordar as pessoas, as decisões e as aprendizagens que considera terem marcado o seu percurso.
E deixou uma frase que sintetizou a relação que mantém com São João da Madeira: "Os cargos passam, o vínculo à nossa terra permanece".
No final, voltou ao início da história. Não ao gabinete da presidência, aos projetos que concretizou ou aos cargos que entretanto assumiu, mas ao jovem de 16 anos que começou a trabalhar na Câmara Municipal. "Recordarei este dia com a gratidão de quem começou aqui aos 16 anos e nunca deixou de se sentir parte de São João da Madeira".