2026/11/06
Santa Maria da Feira Oliveira de Azeméis São João da Madeira
O Terras-Check foi aos arquivos e consultou documentos oficiais para verificar se o anúncio do Governo sobre o prolongamento do Metro do Porto é realmente uma novidade.
O Governo anunciou novos estudos para levar o Metro do Porto aos concelhos do sul da Área Metropolitana. Mas a possibilidade de criar uma ligação metropolitana para Oliveira de Azeméis, São João da Madeira e Santa Maria da Feira já estava em discussão nos anos 90. Em 2008, falava-se expressamente na expansão da rede do Porto.
O anúncio feito pelo ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, a 4 de novembro de 2026, sobre o alargamento do Metro do Porto aos concelhos do sul da Área Metropolitana foi surpreendente e levou a várias notícias nos vários órgãos de comunicação social. Mas será esta uma novidade? Representa a primeira vez que essa possibilidade é colocada em discussão?
O Terras-Check, a rubrica de verificação de factos do azeméis.net, foi procurar os antecedentes históricos da proposta e encontrou documentos oficiais e notícias que demonstram que a ideia de criar uma ligação metropolitana para a região tem quase três décadas. Mais: existem referências expressas ao prolongamento da rede do Metro do Porto anteriores ao anúncio de Miguel Pinto Luz.
A investigação permite, contudo, estabelecer uma diferença fundamental: nem todos os projetos de metro discutidos no passado correspondiam a uma expansão da rede do Metro do Porto. Alguns previam um sistema autónomo de metropolitano ligeiro de superfície, enquanto outros defendiam a articulação da Linha do Vouga com a rede metropolitana.
Um dos documentos mais relevantes encontra-se no Diário da República de 4 de julho de 1997. O Despacho Normativo n.º 34/97, publicado pelo Ministério do Equipamento, do Planeamento e da Administração do Território, identifica um projeto de metropolitano ligeiro de superfície destinado a servir os concelhos de Espinho, Santa Maria da Feira, São João da Madeira e Oliveira de Azeméis.
Não se tratava apenas de uma intenção política. O documento previa uma comparticipação do Estado de 11.411.888 escudos para estudos de viabilidade e revelava que, através do orçamento de 1995, já tinham sido pagos 13.947.826 escudos, correspondentes a 55% do financiamento então considerado.
Isto significa que, há mais de 30 anos, já existiam estudos financiados com dinheiro público para desenvolver um sistema metropolitano na região.
Mas há uma ressalva importante: o documento de 1997 não demonstra que o projeto estivesse integrado na rede do Metro do Porto. A proposta dizia respeito a um metropolitano ligeiro para os quatro municípios.
A ligação à rede do Metro do Porto surge de forma inequívoca em notícias publicadas em 2008.
Em fevereiro desse ano, Castro Almeida, então presidente da Câmara Municipal de São João da Madeira e vice-presidente da Junta Metropolitana do Porto, defendeu a expansão do Metro do Porto a Santa Maria da Feira e São João da Madeira.
Durante um seminário sobre mobilidade sustentável, realizado no Europarque, o autarca declarou: "É fatal como o destino que vai haver metro em S. João da Madeira e Santa Maria da Feira, assim como há a 30 quilómetros a norte do Douro".
Castro Almeida reconhecia, contudo, que a solução de transporte a adotar na região poderia ser diferente daquela que operava no Porto, defendendo a ligação entre os dois sistemas.
Em novembro de 2008, a discussão voltou a ganhar força. Notícias da época davam conta de iniciativas relacionadas com a modernização da Linha do Vouga e com a possibilidade de estabelecer uma ligação à rede do Metro do Porto.
Uma das propostas contemplava um serviço ferroviário mais frequente entre Arrifana, em Santa Maria da Feira, e o Orreiro, em São João da Madeira, através de um investimento previsto de 9,4 milhões de euros.
Na ocasião, Castro Almeida admitiu que a solução poderia constituir um primeiro passo para uma futura ligação da ferrovia regional à rede do Metro do Porto.
Também surgiram referências à possibilidade de Oliveira de Azeméis integrar uma ligação entre a Linha do Vouga e a rede metropolitana, embora os registos encontrados não permitam confirmar a existência de um projeto de expansão formalmente aprovado para o concelho.
O essencial é que, em 2008, a expansão do Metro do Porto para os municípios a sul já era discutida publicamente, incluindo propostas de articulação com a Linha do Vouga.
O anúncio de Miguel Pinto Luz também não surgiu isolado dos trabalhos mais recentes sobre a mobilidade na região.
A 29 de setembro de 2026, o jornal Região de Terras de Santa Maria revelou que estavam a ser analisadas duas soluções para o corredor da Linha do Vouga entre Oliveira de Azeméis e Espinho, passando por Santa Maria da Feira.
Uma das hipóteses consistia na conversão da infraestrutura ferroviária para bitola ibérica, permitindo a circulação de comboios compatíveis com a rede ferroviária nacional. A outra passava pela instalação de um sistema BRT (Bus Rapid Transit), também conhecido como Metrobus.
A informação foi confirmada por Nuno Sousa, presidente do Conselho de Administração da Transportes Metropolitanos do Porto, durante uma audição na Assembleia Municipal de Santa Maria da Feira.
Estas soluções eram distintas de uma extensão ferroviária convencional do Metro do Porto, mas demonstravam que o futuro do mesmo corredor de mobilidade já se encontrava em discussão antes do anúncio ministerial.
A principal diferença está no enquadramento institucional e na abrangência territorial da proposta.
O Governo anunciou agora que a Metro do Porto deverá estudar o alargamento da rede aos municípios do sul da Área Metropolitana, nomeadamente Oliveira de Azeméis, São João da Madeira, Santa Maria da Feira e Vale de Cambra.
A possibilidade de aproveitar o corredor da Linha do Vouga volta a estar em cima da mesa, mas ainda não existe uma decisão sobre o modelo de transporte a adotar.
A inclusão expressa de Vale de Cambra nos estudos anunciados pela Área Metropolitana representa também um alargamento do âmbito territorial relativamente aos projetos históricos identificados.
O anúncio de 4 de novembro é, portanto, um novo desenvolvimento político e institucional, mas não significa que esteja aprovada a construção de uma linha de metro.
Não foram apresentados um traçado definitivo, um orçamento de investimento, um calendário de execução ou uma decisão sobre a tecnologia ferroviária a utilizar.
A verificação dos factos permite concluir que não é a primeira vez que se fala de uma ligação metropolitana para Oliveira de Azeméis e os concelhos vizinhos, nem é a primeira vez que se defende a expansão ou articulação da rede do Metro do Porto com esta região.
Os documentos oficiais comprovam que o Estado já financiava estudos para um metropolitano ligeiro regional em 1995. Em 2008, responsáveis políticos defendiam expressamente a chegada do Metro do Porto a Santa Maria da Feira e São João da Madeira e a futura ligação da Linha do Vouga à rede metropolitana.
O anúncio de Miguel Pinto Luz representa uma nova fase de estudos, não o nascimento da ideia.
Há, no entanto, uma diferença entre as intenções anunciadas, os estudos realizados e a concretização das obras. Até ao momento, nenhuma das propostas históricas resultou numa ligação direta da região à rede do Metro do Porto.
Quase três décadas depois dos primeiros estudos documentados, a região continua a discutir que solução de transporte poderá estabelecer essa ligação.